True.

True.
Love.

sábado, março 01, 2008

Eu.

(Charles Bukowski)

Hoje,

Sou quebra-cabeças sem fim.

Peça na água,
Recortada à força,
perdida prá sempre.

Hoje, se não fosse hoje,

Seria um abraço e beijo de boa-noite,

Calmaria da manhã irreversível.

Hoje, em sintonia, a mesma canção

De despedida, cantarolada em meio aos

Soluços inaudíveis dessa alma

Em pedaços.

Amanhã e depois,

Vem a clareza

Pulando os degraus de dois em dois.

Carregando as fotos desbotadas

Daquilo que fomos pela noite,

Pelo dia, pela cama em desalinho,

Pela mesa mal-posta,

Mas do lado que você gosta.

Depois e sempre,

A lembrança voraz

De tudo que a boca disse

Na garoa que me queimou

Vai ecoar

Pelo quarto vazio,

Pelo mundo vazio,

Pelo peito vazio,

Pelo amor, vazio.

Eu lembro que nunca disse adeus,

Então...
(Shadow)

terça-feira, fevereiro 19, 2008

On the Road (again.)


Interlúdio da fuga.

Corro, acorrentado para sempre
À minha estrada, vazia.
Com medo de cair, tentação.
Com fome de viver, cego.
Com algo que paira único e
Sem minha permissão, inútil.

Tenho as minhas portas abertas
E entram todos os ares de noite,
As cores invisíveis
Dos olhos que não vi.
Lá em casa, tem café.
A roseira conversa com o sol,
Quando a lua só finge sono.
Eu vou caminhando,
Trancos e barrancos?
Não gritarei dessa vez...
As portas, eu fechei.
Janelas batem ao vento,
A rosa na estante,
O cheiro de alguém.

Ouvi um sussurro,
Uma prece sem fim.
Falava de ti,

Falava de mim
Enquanto os sonhadores
Iam impávidos e irreais,
Carregando seus corpos,
Em direção às sombras
Da rua da noite, números mais.
Margem de minha antiga solidão,
Rios que me engolem, negros.
Partir daqui, de mim e de ti,
Como se soubesse trilhar
Os mundos, os campos e curvas

De feliz feição.

Lá fora, a Lua acordada
Enfeita a capa do céu,
Enquanto o Sol, calado,
Nem pisca.
E saiu (a rosa) para nunca mais voltar.

À porta, um aceno.
E longe, muito longe, hei de morrer.


*Nennefth*
Meu velho camarada.
Saudade de velhos poemas da noite!*
Benvindo.

segunda-feira, setembro 17, 2007

A dúvida é a resposta do Destino?


1411
(Aos 21...)
(J).
Ah, que me valham mais
Os Demônios da Escuridão
Que os padres iluminados
Pelos castiçais.
Que me valha nesse dia um Deus Obsceno
E não um monstro de traços angelicais.
Rogo pela fúria da chaga feita,
Pelo tremor do corpo imolado,
Pela paz de um abraço de vidro.
Vejo milhões de olhos e eles pedem o mesmo,
Desesperados, ávidos,
Por um pouco da mesma sopa ou
Um gole do mesmo fel.
Vejo os corpos, frenéticos, estertorando...
Como cobras cortadas ao meio
Ansiosas pelo impossível religamento.
E me vejo num espelho negro,
Ridiculamente eu, imperfeição estonteante,
A me vestir de sangue pelo corpo ao avesso.
Abotoando os ossos com cravos de metal,
Ajustando o coração carnal no peito
Ao mesmo compasso da risada contida.
A pele por dentro, é macia.
O amor por fora, é alegria.
Mas salvação é um estágio, solto no espaço,
Em profunda letargia.
Canto ao som dos sapatos que percorrem
Ruas de merda, sujos pela lama mais humana.
Danço ao som dos gritos eloqüentes, insanos e
Harmoniosos dos desvalidos que tanto sabem...
E rodando, sempre como um idiota,
Sujo o que está a minha volta
Com a tinta fosca da desolação.

quarta-feira, julho 25, 2007

Laguna do Espelho


Sou um deserto.

Sete mares e uma sede enorme de ti.

A sede de tempos remotos de homens sem cor

nos seus puro-sangues negros.

Encontrei um lago de água turva e hesitante,

caminhei em sua direção.

Entrei com um maço de cigarros e a sede.

Caminhei sem medo pela escuridão líquida da saudade.

Silêncio em mim.

Vejo a cor de seus olhos íntimos.

Calamidade e fogo,

um peito em queda livre,

a sensação inebriante da mente em chamas.

Mil dias me separam da margem

Penso: de que vale a vida toda pelo tempo em vão?

Bateram à porta:

"Quem é?"

Respondeu:

"Sou você, vindo de antes, trazendo a sua túnica..."

Disse:

"Quantos dias demorei?"

Ao abrir, uma face sem expressão, apontou em direção ao chão.

E escorreu para os vãos do assoalho, zumbindo.

Me vi nu, nadando só, no maior mar de todos,

O mar das palavras sem sentido e do amor não existente.

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmm:

"AlÔ?"

"Queria te contar um sonho..."

"Mas não sonhei-o ainda..."

"Era assim..."

01/04

(J).

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Casa Solidão.


Atrás de cada árvore, uma assombração.

O barulho da mata solitaria nos teus ouvidos

Evoca arrepios: sente o vento contando teus passos?

shhhhhhhhhhhhhhhh.................................

Há luz entre folhas, mas não é a claridade que importa.

Nas sombras da luz, eu ando.

Lembrando amores, caçando sonhos...
Ah, mulher...vem devagar.

Com cuidado, pois invento histórias de medo para que não me temas...

Chegue sorrateira, traga mel.

Um pouco de fumo e uma garrafa de aguardente.

Sei que a casa é pequena, mas cabe a cama.

A gente bebe, ri das nossas caras e dorme fazendo amor.

Pode vir com uma flor, vai caber onde não cabe a mesa.

Mas cuidado...eu posso não estar mais aqui.

Posso ter ido ver as estrelas no alto do morro,

Posso ter ido ao teu encontro no fim-do-mundo.

Espero há eras pela tua chegada.

Minha casa é só silêncio e dor.

Voltei à noite.

No canto, uma flor morta.

Na cama, um fio de luz.

Em mim, a mais fria ausência.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

LIbertação.



Vigilantes ao redor de cada mundo,
Senhores de mãos atadas, ourives.
Ouçam:
Eu descia a rua, um pé em cada lado da calçada,
As árvores e os cestos de lixo rangiam,

E no fim, na esquina virada, eu vi um filme
Que uma voz sem história repetiu:

“Deixa-me sair,
Pois quando entrei,
larguei meus pensamentos no mar.
Só preciso dar uma volta,
matar alguns momentos do meu tédio.
Vou e volto,
em cima do rastro de migalhas de amor que levo.
Vou e trago um pedaço de um peito
velho e sonolento, amoroso e piegas.
Me permita uma estadia lenta
nos quartos escuros da estalagem da memória,
Um dèja-vu ao contrário,
como se eu esquecesse algo de que nunca me lembrei.
Me deixa sair!
Eu sangro nas pontas dos dedos,
pois tentei abrir a porta com minhas chaves,
Meus pés estão tortos de tanto chutar
essa parede de mentiras que ergueram aqui.
Me deixa, por favor, o céu tão alto me chama a toda hora.
Vou e talvez volte, trazendo uma pequena alegria de liberdade.
Eu cantei por anos a canção dos sonhos,
Eu tentei por séculos o amor sem volta.
Mas tudo que encontro é a porta fechada.
Eu te peço, destino, me deixa sair daqui.
Nada se justifica pela lei que cria os assassinos...
Não me deixou sair.
Eu saltei pela janela do outro lado.
E o chão nunca chegou...”

Ouvi.
E deitado,
na sarjeta,
suja, verdadeira e doce,
Pensei: “esse é o chão...”.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

TROUBLE SHOOTS YOU UP!

Partir. Nas brumas insones do pesadelo diário. Partilhar A luz que afaga cada dia Com as mãos enormes do destino. Deitar os olhos no céu e ver a mundana Face no espelho intimado. Perigo. Contra si mesmo A arma é precisa e cruel A espada afiada pelo invisível e Por todas as emanações Da terra e do mar. Partir para onde? O que conhece este pobre Que mal saiu da casca? Sei que dói amar, meu sonho. Sei que Partir é o mesmo que chegar. Me pergunta a cor do céu, mas Não sei as horas. Me pergunta um mistério insondável! Mas não me questiona a sanidade. Mantém o apoio a mim e a ilusão de achar que sei quem sou. Vou fugindo, enquanto posso, Vou correndo Mas até onde e quando? E se meu desejo é estar parado, Na frente um manto E nas costas, asas? Partindo, cheguei ao mais distante Ermo do teu coração. E todo dia, na palavra, uma só Vontade, líquida, imaterial: Um beijo de despedida,
denso como a morte, Para iniciar a chegada.

sábado, setembro 02, 2006

All that you want...

ENCONTRO. Numa sintonia sem tamanho, Encontro-a imóvel na rua escura. O teu corpo percorre o curso invisível dos meus olhos, Fugindo da inexorável condição de escrava da luz. Tentas fugir... Não te prendo, mas sou como a tua interna chaga, Um ponto cego dentro da cegueira. Mudas a cor dos olhos, cortas os cabelos, pinta-os de céu. Mas não te perco, farejo-a como um cão menor fareja o rastro De um cão maior que abre o caminho para a liberdade. Preciso de ti, preciso da tua aceitação Para que seja fácil viajar em vão... Para que o ato solitário tenha uma causa Mais soberba, mas menos nobre... Infinito, sem ti o sonho é infinito... É como fechar os olhos eternamente, esperando O momento certo de agir. Não acredito na esperança. Mas um dia, quando cansares desta fuga, Me encontra na planície ou na montanha, me fustiga com uma lâmina de fogo, Me abrace e me queime, Como um amante queima sua amada Numa noite solitária de verão.

quarta-feira, outubro 19, 2005

OS ESCARAVELHOS

3(pequena crônica sobre sexta-feira) Eu vi. As 3 pedras vindas do Sol!♀ ö ♀Ä Elas brilhavam entre as luzes do mundo, flutuantes, deslizando... Harmoniosamente como pequenas asas de anjo... No fogo daquela paixão não humana, homens-raposa esgueiram-se, movimentam-se, transformam em som o sentimento vivo,imaculado,
plantado e semeado pela liberdade
de ser quem se é... ANd Drugs Regards Éndless Armour Yard Restless Ending Soul... ANd DReams Éxhibithion WILL Drop My Arms Rolling Cold... Que noite, senhoras e senhores! A música que enleva, sorri como o mais belo bem desejado, Três brilhantes pedras moldadas pelo mais puro sentimento, emocionam...

domingo, agosto 28, 2005

Em algum ponto entre o nada e o o que não vejo...

Frio. Uma onda de tremores e um pouco de medo. Sua presença. A tua mão que eu sonhava afagar meu peito, cai. Você, como a luz, como um rastro, meu guia entre um ponto distante E tudo que meus olhos me negam ver. Sinto só um resto de força me levando, Dei meus esforços por tua presença em mim, como bálsamo. Queria atrever-me a escalar tuas paredes, sorrir tuas risadas. Mas esse amor louco, essa ânsia de ser tão grande como o céu, De amar o brilho que emanas, eternamente, me entristece. Me sinto tão vazio, etéreo demais para sentir tanto e Talvez silenciosamente saibas que quero ter uma noite, Uma madrugada eterna em ti e em tuas mais secretas mortes, Quero o espaço, quero a exata solidão fria, após o teu partir. Respiro o teu hálito de noite, tua vaga maneira de olhar desaprovando meus anseios, sem saber que os tenho. Sabe quando te falo de amor, de toda essa maldita idiotice que limita nossa estada, que nos retém como moscas na teia da aranha, malvada criatura que envenena essa pureza almejada, esse desejo de sermos escravos um do outro. Quero me desvencilhar, me soltar, mas, daqui mesmo, já antevejo a mesma escravidão e o predador só muda de cheiro. Mas eu acredito que me encantas, que me mataria para te ter uma única vez. Porque se me vejo só, sinto o vazio que me deixas como o próprio corpo que me carrega...

sexta-feira, agosto 05, 2005

Conversa durante o jantar, após o Pôr-do-Sol.

Por favor, mate-me... Tire de mim um pouco dessa vida, tire de mim a pouca esperança que me sufoca. Por gentileza, me amarre a uma pedra e me jogue no negro vale abissal. Tire-me a pele, arranhe meus olhos, chicoteie minhas costas. Perfura meu peito, vida maldita, pois não sinto mais dor. Sinto só a solidão de todas os dias passados, Sinto pelo medo que me foi tirado e Anseio, inerte, por um golpe de misericórdia nessa bela tarde azul. Alguém sobre meu ombro pergunta por meus motivos E não respondo, pois sou eu quem sempre faz essa pergunta. Mando-me para a noite das minhas mágoas, Caminho como sempre, devagar, saboreando a dor nas pernas retesadas de raiva. E diviso um vulto que brilha negro à minha frente, Serpenteando e sendo rasgado pela luz que nunca apaga. Persigo-a desde o primeiro dia em que a vi, mas não a encontro em meus braços. Pergunto: Se a morte vem e é sombra sobre a vida, Por quê não me deixas te embalar ao som dos meus gemidos, Para que ouças como sou triste e solitário, Fraco como tua complexa simplicidade de mar e sonhos, Que me seduz tal bela mulher de olhos velhos, sorridentes. Amo como se amasse o invisível e desejo a morte como quem quer voar. Por favor!

quarta-feira, julho 27, 2005

A Luz do Pensamento.

Um demônio de sagacidade, como Uma fita prateada numa caixa de bombons. A razão da beleza não é a mesma do desejo. Um sorriso de verdade, aquele dado em Uma bela madrugada na beirada da loucura, O temor do destino não é medida de repulsa. A amável empreitada é só a vida sem pudores, O incongruente buscar pelo tudo e pelo nada, Quem não abraça as trevas, não enxerga a luz. Eu abracei a mim, sem ninguém para me guiar, E vou desabalado, pois a paixão é invisível a certos olhos, Acostumados a uma claridade fosca, uma vela na floresta. A distância ajuda a vela, a floresta a esconde. E o caminho de todos os mundos é igual ao caminho Que eu mais conheço, a estrada esburacada em que Velhos seixos à margem depositam suas folhas mortas e seus dejetos, folhas secas, insetos mortos e mais uma porção de matéria que os homens mais calmos não vêem. O lugar onde todos os Dias a Escuridão se despede da Luz, Para mais tarde encontrarem-se suavemente, como uma adaga afiada invadindo a suculenta carne de um cordeiro. E depois, só o silêncio e o sangue da separação, Só a dor e a rejeição de si, escuro demais para ver ou claro demais para confundir.

terça-feira, julho 19, 2005

The walk.

Então, pelo barulho da rua que gritava lá fora, fui saindo...e saí como quem deixa todas as coisas em ordem, jogadas, luzes acesas, o gás aberto,explosão inevitável...mas saí.E no percurso, uma queda, duas quedas... mais alguma pessoa saberia me dizer onde fica o mundo que existe além dos muros, além de minha frágil noção de direção, da minha loucura neurótica, planejada e tediosa?A Luz atrai a Luz, continuei a ver se dava para passar pelo rio mais fundo, sozinho. Os pés roçaram uma lama fria, que lembrava solidão.Mas fui seguindo aquele rastro, uma fresta que vem entrando pelo seio da face iluminada, um jogo de cabra-cega que me indicava que um dia sempre se chega a lugar algum. E não vai adiantar ser otimista, fui mutilado da visão de horizontes de verdade, onde o Sol não nasce, mas permanece, pintado e imóvel como o desejo mais secreto de amor que guardo.E então, quando cheguei em outro lugar, ao tirar a venda, sairam de braços dados, a realidade e a alma, dizendo adeus e me tornei um simples pedinte, que canta uma canção muda num dos labirintos da cidade.

terça-feira, março 22, 2005

Eutono ou Ou

Renasci como um buraco...

E de cara, olhei um pouco para o céu...

Aguardei um pouco de calor e a água veio, me misturando ao vento...

E tão espessa era minha alma, que corria com a lama...

e um medo enorme de nunca mais ser leve me dizia aos berros:

"Chova, chova,CHOVA!!!"

E então chovi um pouco e em poucas horas, voava.

Ferido, mas voava...

Sabia que o mundo era lá embaixo, mas não sabia como descer...

Cansei de me olhar pelas poças, pelas folhas e pelo orvalho...

Cansei de aguardar sementes e vegetar vazio...

Abri-me como uma cova sem corpo e hoje sou a parte evitada...

Sou só um buraco...sem dor...sem esperança...

Mas um buraco com imenso bom-humor...

Rá...rá...rá...é Outono!!!!

quinta-feira, novembro 18, 2004

SoulLess

SoulLess "E minha alma vaga errante pelos campos do Senhor, Em busca de um novo corpo, ausente de dor. Minha essência de demoníaca estirpe me protege Das acusações absurdas dos monges tão hereges. E me busco de tantas enrascadas, me ressinto De tantas marcas que não deixei, assim como minto Quando espero pela concórdia de mim com essa alma Que me endoidece, me adoece e me freia a calma. A alma me condena, a luz me cega, o mundo cai. O beijo esfria, a luta acaba, o Sol se vai. Uma noite apenas, um amor sereno, o fim terno De nada como antes sempre foi,assim, eterno. Doce como a chuva, lento como a morte, medonho... E o corpo e a alma, unos, caindo de um abismo Nos braços cálidos do sonho."

quinta-feira, outubro 21, 2004

Conto da Noite ao dia l

DELÍRIO Ao passar entre as Roseiras, noite de lua, teus cabelos perderam-se no emaranhado de pétalas rubras. Observei escondido pelo vidro, embaçado pela fumaça errante do velho cigarro, sua delicada mão se estender e tocar suavemente os galhos espinhosos banhados pelo gélido iluminar lunar. E, de repente, um gesto brusco e uma gota escarlate caiu eternamente, como num mergulho, sobre o azulejo do quintal. A dor estampou-se em seus olhos e do meu refúgio assisti a bela cena que você proporcionou. Folhas, galhos, pétalas e botões caiam ante seus furiosos golpes. E no fim, todos satisfeitos, uma calmaria abateu-se sobre o Jardim. Tu estavas calada e tuas lágrimas misturavam-se ao sangue que brotava dos teus braços lacerados. A roseira ressentia-se e prometeu jamais tentar afagar os teus cabelos novamente. E eu continuei a observar os movimentos etéreos da fumaça na janela, esperando a vingança das rosas. CENA 2: Mudo, ao alvorecer, fui ao quintal. A tempestade havia deixado seu rastro calamitoso no rosal. Pensei em recolher os restos e jogá-los a esmo na terra, mas uma rajada pulsante antecipou-me e o chão limpo me convidou a deitar e ficar ali, a manhã inteira, olhando o céu e contando as nuvens, para recompor meus sonhos e voltar ao trabalho. Por duas horas confidenciei mentalmente os meus temores ao solo e quando me levantei, vi o remorso transformar-se em amor. Você vinha esbaforida e urgente, colher uma rosa para o seu altar. E havia uma, pendente como uma perna quebrada, a te esperar ansiosa por um copo de água fresca. Você a pegou, encostou-a ao lábio e num ato mágico, ela se abriu. Teu beijo é a fonte que refresca as flores. Agradeço um destes para aliviar a minha alma esfumaçada. Olhei para o Sol, abri os braços e acordei . . . São 10h e ainda não sei quem sou.

segunda-feira, setembro 20, 2004

Carícia

Mil mãos e pés me acertam, contundentes... Ouço só a minha voz, entre todas. O chão tem gosto de algo azedo... Em meio a uma prece, um abraço Que me salva da balbúrdia violenta. Por quê a salvação? Me explique por favor, ao menos, Por que não te sentas aqui e tomas o meu chá? Milhões de Estrelas E abandonas meu coração Para ir ao baile dos signos e à feira... Tantos mundos giram... Compre maçãs, dance boleros. Acerte todas as estrelas cadentes Dessa noite lilás. E o chão macio não é mais Um lugar tão ruim para deitarmos sozinhos. Traga-me flores, flor, envoltas num jornal de qualquer dia, Limpe minhas mãos ensangüentadas nos teus ruivos cabelos E me diz que eu mereci a tua vingança. Pois é assim que espero tua volta: Esperançoso.

sexta-feira, agosto 06, 2004

Amigo Perdido

E então, tudo volta ao que era.
Uma Luz apagada numa viela,
A mão pousada na janela.
Minha paz se retém na flâmula da insônia,
Minha hora esquece a garoa.
Voltando ao tempo, revejo as macas,
Onde se deitam as almas penadas.
Refaço, irritado, os velhos caminhos que trilhamos juntos.
Me vejo errado e ao mesmo tempo certo.
Adoro as vozes que não ouvimos.
Retenho as mágoas, para fazer o meu capuz, e esqueço as dores e tudo é luz...
Mas o engenho da saudade mói meu peito!
E o teu rosto me sorri, num grito ensurdecedor...de falta.
A falta de uns dias sem igual,
O romance, a tragédia, a alegria e o caos.
Umas aqui, outras lá e nós, ali, juntos ao que somos,
Sem corpo, sem alma, a nos impulsionar para a Noite.
p.s.:ao que nunca se foi
ao que me matou a confiança
ao que me disse : "Novo mundo à frente!"
ao que me deu sonhos
ao que me tirou deles
por fim, ao amigo...

terça-feira, julho 27, 2004

transe

Conhece uma maneira de gritar calado?
Apanha tuas asas e voa, incrédulo, em direção ao nada? Meus pés entranham-se nos fios do dia, Minhas falas repetem-se na peça da vida... Sou mais um que comenta de sonhos na rua, que fraqueja ao pensar na palavra de ordem. Exponho aqui o desejo que meu coração anuncia, que hiberna na manhã e morre toda noite... Silenciosamente, me sento no chão e espero a indicação de alguma direção Para partir. Aprendi a falar sem dizer, gozar sem sentir, Amar sem esperar e mudar sem querer. Apareci no espelho e em transe, chorei um pouco da minha dor Para você, que vaga pelo espaço E nunca desce para olhar as estrelas...